A figura de Maria sempre foi muito cara à Igreja e o seu culto sempre teve grande apreço de todos os cristãos. O Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, fala do lugar que a Virgem Maria ocupa na celebração do ano litúrgico, afinal de contas, Maria é intercessora, é medianeira, ela nos apresenta ao Pai e ao seu Filho Jesus. “Na celebração anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor a bem-aventurada Mãe de Deus, Maria, que por um vínculo indissolúvel está unida à obra salvífica do seu Filho; nela admira e exalta o mais excelente fruto da redenção e a contempla com alegria como uma puríssima imagem daquilo que ela mesma anseia e espera ser.” (SC 103)

A ênfase é colocada na centralidade e supremacia do mistério de Cristo, do qual recebem luz e adquirem significado as festas de Nossa Senhora e as festas dos santos, ou seja, não teria sentido celebrarmos a Virgem Maria e os santos, se o centro não fosse Jesus Cristo. O ano litúrgico, de fato, é do Senhor Jesus Cristo em toda a extensão e plenitude do seu mistério. Cada celebração nos leva a contemplarmos a obra do amor de Deus não de uma maneira fracionada, mas de uma maneira total. A preparação para a vinda do Messias, da sua Encarnação até o Calvário, de Pentecostes aos dias atuais, tudo nos leva a crer que Deus realiza a obra da salvação por meio de Cristo no Espírito Santo e ela não aconteceria sem a figura singular de Maria.

O mistério de Cristo é também o indissolúvel mistério da Igreja, o seu corpo, gerado no ventre e no coração de Maria. Quatro são as motivações destacadas pela SC para venerar Nossa Senhora com especial amor durante o ano litúrgico: porque é a mãe de Deus; porque está indissoluvelmente unida à obra da salvação de seu Filho; porque em Maria admira e exalta o fruto mais excelso da redenção; porque contempla nela, como numa imagem puríssima, aquilo que deseja e espera ser. Dessa maneira, podemos compreender a presença de Maria no ano litúrgico, através do pensamento de São Luís Maria Grignion de Monfort: “A Jesus por Maria”. Por ela e com ela, de mãos dadas com Maria para chegarmos a Jesus.

No calendário civil, o segundo domingo de maio é dedicado às mães. Sabemos o quanto é importante a figura da Mãe para nós e no Cristianismo sabemos o quanto é importante a figura de Maria, principalmente pela sua maternidade. Logo, a nossa relação com Maria se dá dom da maternidade, é uma ligação umbilical. Pelo vínculo do Batismo, ao sermos chamados filhos de Deus, membros de sua família, já recebemos Maria por mãe. A celebração do dia das mães deve, portanto, levar cada mulher-mãe a reconhecer em Maria o modelo de Mãe amorosa.

As primeiras festas marianas eram fixadas em torno do Natal ou 15 de agosto, celebrando especificamente a sua maternidade divina. A partir do Concílio de Éfeso (431), o culto prestado pelo povo de Deus a Maria cresceu admiravelmente em amor, em oração e imitação, passando a ser venerada como Mãe de Deus. Este foi o primeiro dogma mariano instituído pela Igreja e atesta uma dignidade única: a Virgem concebeu e deu à luz o Verbo de Deus segundo a carne e, por isso, pode ser chamada verdadeiramente de Mãe de Deus. Pelo próprio título do dogma podemos compreender: ela não é apenas mãe do corpo de seu Filho, mas é, plenamente, a Mãe do Filho, que é Deus. Essa maternidade estabelece uma relação pessoal com o Pai – aberta em seu coração pela resposta “Faça-se” dada ao Anjo Gabriel (cf. Lc 1,26-38) – e acontece num nível único de profundidade. É a relação mais alta que se possa pensar entre uma criatura e o Criador.

Deus tem compaixão do seu povo, se abaixa e vem até ele, tomando a condição humana em tudo, exceto no pecado, a fim de que o homem se eleve até Ele e se abra para o Espírito. É o sim de Maria que propicia esse movimento, percorrendo um longo caminho com seu Filho, entremeado de provas que ela guardava em seu coração (cf. Lc 2,51). De Maria, a bendita entre todas as mulheres, devemos aprender a disposição em colaborar com a obra da Redenção. Pelo seu sim, ela nos ensina também a dizermos sim a Deus. E, como filhos, devemos manifestar nossa confiança na intercessão da Mãe, assim como nos deixa São José de Anchieta em seu poema dedicado à Virgem Maria: “Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança, caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança! Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo, Jorrando água para a vida eterna!”

Além das referências sobre as festas marianas abordadas pela Constituição Sacrosanctum Concilium, grande impulso foi dado pela exortação apostólica Marialis Cultus, do Papa Paulo VI, em fevereiro de 1974. As relações entre Maria e a liturgia está no fato dela ser reconhecida como modelo excelentíssimo de Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo. (cf. MC 16) A celebração das festas marianas deve, sobretudo, conduzir-nos a uma espiritualidade centrada no mistério de Cristo.

Na exortação de Paulo VI encontramos duas virtudes de Maria essenciais aos cristãos e, sobretudo, aos que querem celebrar com maior clareza e dignidade a participação de Maria na liturgia:
1) “Maria é a Virgem que sabe ouvir, que acolhe a palavra de Deus com fé; fé, que foi para ela prelúdio e caminho para a maternidade divina, pois, como intuiu Santo Agostinho, ‘a bem-aventurada Maria, acreditando, deu à luz Aquele (Jesus) que, acreditando, concebera’; na verdade, recebida do Anjo a resposta à sua dúvida (cf. Lc 1,34-37), ‘Ela, cheia de fé e concebendo Cristo na sua mente, antes de o conceber no seu seio, disse: ‘Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38 – ibid.); […] É isto que também a Igreja faz; na sagrada Liturgia, sobretudo, ela escuta com fé, acolhe, proclama e venera a Palavra de Deus, distribui-a aos fiéis como pão de vida (DV 21), à luz da mesma, perscruta os sinais dos tempos, interpreta e vive os acontecimentos da história.” (MC 17)

2) “Maria é, além disso, a Virgem dada à oração. Assim nos aparece ela, de fato, na visita à mãe do Precursor, quando o seu espírito se infunde em expressões de glorificação a Deus, de humildade, de fé e de esperança: tal é o “Magnificat” (cf. Lc 1,46-55), a oração por excelência de Maria. […] Este cântico da Virgem Santíssima, na verdade, prolongando-se, tornou-se oração da Igreja inteira, em todos os tempos. Por fim, ainda a última passagem biográfica relativa a Maria no-la descreve orante: os Apóstolos “perseveravam unânimes na oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos dele” (At 1,14). Presença orante de Maria na Igreja nascente, pois, e na Igreja de todos os tempos; porque ela, assumida ao céu, não depôs a sua missão de intercessão e de salvação.” (MC 18)

No ano litúrgico não existe um “ciclo mariano” paralelo ao de Cristo. Isso não se sustenta nem teológica, nem liturgicamente. A Igreja, ao prestar culto à Maria, nunca a separa de seu filho Jesus e venera a Mãe de Deus unida à obra da salvação de Cristo. (cf. SC 103) Dessa maneira, a memória de Maria é celebrada perenemente entrelaçando-se com os mistérios de Cristo.

Algumas festas enlevam os mistérios da vida de Maria e a sua íntima união com o Pai, como a sua Imaculada Conceição (08 de dezembro), Natividade (08 de setembro), Visitação (31 de maio) e Assunção (15 de agosto). Em 1º de janeiro, celebramos o dogma proclamado no Concílio de Éfeso, que é a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Outras quatro festas que já eram celebradas antes do Concílio Vaticano II permaneceram como memória obrigatória: Nossa Senhora Rainha (22 de agosto), Nossa Senhora das Dores (15 de setembro), Nossa Senhora do Rosário (7 de outubro) e Apresentação de Nossa Senhora (21 de novembro). O calendário litúrgico não registra todas as celebrações de conteúdo mariano, pois algumas são próprias das igrejas locais ou ligadas a devoções regionais, assim como invocamos Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil e Nossa Senhora da Penha como padroeira do Espírito Santo.

“É importante observar bem como a Igreja procura traduzir as multíplices relações que a unem a Maria, em outras tantas atitudes culturais, diversas e eficazes: em veneração profunda, quando reflete na dignidade singular da Virgem Santíssima, que, por obra do Espírito Santo, se tornou Mãe do Verbo Encarnado; em amor ardente, quando considera a maternidade espiritual de Maria para com todos os membros do Corpo Místico; em invocação confiante, quando experimenta a necessidade de intercessão da sua advogada e auxiliadora (LG 62); em serviço amoroso, quando descobre na humilde Serva do Senhor a Rainha da misericórdia e a mãe da graça; em imitação operosa, quando contempla a santidade e as virtudes da “cheia de graça” (Lc 1,28); em admiração comovida, quando vê nela, “como em imagem puríssima, o que ela, toda ela, deseja e espera com alegria ser” (SC 103); em estudo atento, quando vislumbra na cooperadora do Redentor, já a participar plenamente dos frutos do Mistério Pascal, a realização profética do seu futuro pela qual anela, até ao dia em que purificada de qualquer mancha ou ruga (cf. Ef 2,27), se tornará como uma esposa adornada para o seu esposo, Jesus Cristo (cf. Ap 21,2).” (Marialis Cultus, 22)

Marcus Tullius 

Publicação para o Folheto Caminhada – Maio/2014