Celebrar a Semana Santa requer de todos os cristãos uma preparação interior, para que cada gesto ganhe uma ressonância durante todo ano. É uma semana de intensas celebrações e espiritualidade, a culminância do itinerário quaresmal.

A celebração da Semana Maior da nossa Fé tem a sua abertura com a celebração de Ramos. Uma liturgia profundamente significativa na qual se faz a memória da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o prenúncio de sua Paixão. Dois caracteres são distintamente destacados. O primeiro, expresso pela procissão dos fieis com os ramos de oliveira e aquele que preside evocando a figura de Jesus, recorda o gesto da narrativa evangélica, quando Cristo entra na cidade sentado sobre um jumento, como se refere na profecia de Zacarias e inaugurando uma nova era. “Desde a antiguidade se comemora a entrada do Senhor em Jerusalém com a procissão solene, com a qual os cristãos celebram este evento, imitando as aclamações e os gestos das crianças hebraicas, que foram ao encontro do Senhor com o canto do Hosana.(…) Conservados em casa, os ramos recordam aos fiéis a vitória de Cristo celebrada com a mesma procissão.”(Paschallis Sollemnitatis, 29) A procissão seja uma só e feita sempre antes da missa com maior concurso do povo, também nas horas vespertinas, tanto do sábado como do domingo.

A segunda característica é a narrativa da Paixão. “A história da Paixão reveste-se de particular solenidade. É aconselhável que seja cantada ou lida segundo o modo tradicional, isto é, por três pessoas que representam a parte de Cristo, do cronista e do povo. A Paixão é cantada ou lida pelos diáconos ou sacerdotes ou, na falta deles, pelos leitores; neste caso, a parte de Cristo deve ser reservada ao sacerdote. A proclamação da paixão é feita sem os portadores de castiçais, sem incenso, sem a saudação ao povo e sem o toque no livro; só os diáconos pedem a bênção do sacerdote, como noutras vezes antes do Evangelho. Para o bem espiritual dos fiéis, é oportuno que a história da Paixão seja lida integralmente sem omitir as leituras que a precedem.” (PS, 33)

Nos três dias que seguem – segunda, terça e quarta-feira da Semana Santa-, a Igreja se prepara para celebrar o Tríduo Pascal. O Servo Sofredor relatado por Isaías nas leituras é configurado com Jesus Cristo e na narrativa do Evangelhos acontecem os prenúncios da Paixão. É, pois, tempo de significar a vida com os acontecimentos de Cristo. Iluminar a vida com a sua vida. Deixar que pulse em cada coração os mesmos sentimentos Dele.

O Tríduo Pascal: o ponto mais alto de todo o ano litúrgico   

No decorrer do ano litúrgico celebramos-atualizamos o mistério de Cristo no tempo. Deus entrou na história para aí realizar um plano salvífico que culminou com a Paixão – Morte – Ressurreição de Cristo. Este evento modifica radicalmente a condição humana e constitui uma novidade absoluta. Somente quando compreendemos a importância desta ação de Deus na história, somos capazes de celebrar bem e dar a devida importância. No corpo humano, temos o coração que bombeia o sangue e garante a vitalidade de todos os seus membros. No ano litúrgico, o Tríduo Pascal cumpre essa função. Ele é vital para a Igreja. É vital para o cristão!

“Como o Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus principalmente pelo seu mistério pascal, quando morrendo destruiu a morte e ressuscitando renovou a vida, o sagrado Tríduo pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor resplandece como ápice de todo o ano litúrgico. Portanto, a solenidade da Páscoa goza no ano litúrgico a mesma culminância do domingo em relação à semana.” (Normas Universais do Ano Litúrgico, 18)

A Páscoa semanal ganha novo sentido quando a Páscoa anual é compreendida a partir de uma visão globalizante. Não são três celebrações isoladas e independentes, mas se unem num mistério harmonioso – Cenáculo, Calvário e Sepulcro vazio -, conduzindo os fieis à contemplação máxima o amor de Deus pela humanidade. As equipes de liturgia de nossas comunidades devem acentuar durante este período que, conforme diz G. Visoná, possui “grande prenhez e riqueza não apenas litúrgica, mas também teológica”, o aspecto unitário, fazendo com que a celebração conserve plenamente a unidade da obra da redenção e do mistério de Cristo.

Durante o tríduo pascal, bem como em todo o ano litúrgico, proclamamos as maravilhas que Deus realizou ao seu povo. Trazemos a nossa vida para conciliá-la ao mistério de Cristo e assim fazer memória. O que é fazer memória? É trazer o passado ao presente, reassumir o compromisso afetivo e efetivo entre Deus e o ser humano. No salmo 110 rezamos com o salmista “O Senhor se lembra sempre da Aliança”, da mesma maneira também nós lembremos dessa Aliança.

 A Ceia do Senhor: serviço e compromisso

A celebração inaugural do tríduo pascal é a Ceia do Senhor, na quinta-feira da Semana Santa. Por esta celebração vespertina, nós somos inseridos no momento sacramental do próprio mistério redentor, através da memória da Instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. É uma união indissolúvel que brota da entrega de Jesus na derradeira ceia. A própria antífona de entrada da celebração, baseada na carta de São Paulo aos Gálatas exprime o caráter pascal da vida cristã, caráter este que começa a ser saboreado com a celebração da Ceia: “Não nos gloriamos em outra coisa senão na Cruz de Jesus Cristo, nosso Senhor: ele é a nossa salvação, vida e ressurreição; por meio dele fomos salvos e libertos.” (Gl 6,14)

Celebrar a Páscoa significa celebrar o rito eucarístico, aquele que Jesus ordenou celebrar em sua memória. E a Igreja, por vontade Dele, perpetua este rito até a sua volta. A quinta-feira é entendida como a Páscoa Ritual, pois as leituras bíblicas nos falam do rito pascal do Antigo e do Novo Testamento, tendo no centro a ceia pascal celebrada por Jesus com os apóstolos.

O conjunto das leituras constitui um tesouro inestimável para os discípulos-missionários de Jesus Cristo. A 1ª leitura, extraída do livro do Êxodo, e a 2ª leitura, da 1ª Carta de Paulo aos Coríntios, mostram a dinâmica da memória: é o velho que dá lugar ao novo e, acima de tudo, dá sentido. A narrativa da primeira Páscoa nos prepara para a Páscoa de Cristo, a sua definitiva entrega na Cruz, narrada no relato mais antigo sobre a Eucaristia. “Fareis isso de geração em geração, pois é uma instituição perpétua.” (Ex 12,14)

O Evangelho realça a missão daqueles que decidem seguir Jesus: o amor que se manifesta no serviço. O gesto ritual do Lava Pés não deve ser apenas uma encenação ou dramatização do ato de Jesus, mas colocar a assembleia celebrante diante do próprio mistério, de maneira simbólica e orante. O desfecho da celebração não acontece da maneira habitual, mas todos se recolhem silenciosamente e, no lugar previamente preparado, acontece a transladação e adoração do Santíssimo Sacramento. Não é um momento de velório, mas é uma contemplação que alimenta a fé e a esperança dos crentes na força da Páscoa de Jesus.

A Paixão do Senhor: “mar de dor e de amor”  

Neste dia, em que “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado”, a Igreja, com a meditação da paixão do seu Senhor e Esposo comemora o seu nascimento do lado de Cristo que repousa na cruz e intercede pela salvação do mundo todo. O elemento litúrgico fundamental é a celebração da Palavra, adoração da Cruz e distribuição da comunhão. É a memória histórica desse ato supremo e amor de Nosso Redentor pela humanidade, não como um funeral, dia de luto ou pranto, mas como contemplação do sacrifício cruento de Jesus.

A sexta-feira da Paixão do Senhor é um dia atípico para os cristãos, pois não se celebra os sacramentos. “A Igreja, seguindo uma antiquíssima tradição, neste dia não celebra a Eucaristia; a sagrada Comunhão é distribuída aos fiéis só durante a celebração da paixão do Senhor; aos doentes, impossibilitados de participar desta celebração, pode-se levar a Comunhão a qualquer hora do dia.” (Paschallis Solemnitatis 59)

A entrada é feita em silêncio, pois diante do mistério da morte de nosso Deus a melhor atitude das criaturas é calar-se e prostrar-se. O sacerdote e os ministros, feita a reverência ao altar, prostram-se: esta prostração, que é um rito próprio deste dia, seja conservada diligentemente, pois significa não só a humilhação do “homem terreno”, mas também a tristeza e a dor da Igreja. Durante a entrada dos ministros os fiéis permanecem em pé, e depois ajoelham-se e oram em silêncio.

O corpo da liturgia da Palavra expressa a confiança total que os cristãos devem depositar em Deus, assim como o próprio Jesus confiou: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.” (Sl 30) Após a Oração Universal, que conclui a Liturgia da Palavra, tem início a Adoração da Cruz. É o único dia em que a Igreja adora o Cristo morto na Cruz. Celebrar a Paixão é celebrar o despojamento do próprio Cristo no seu ato supremo de amor pela humanidade. Os sinais externos do templo nos ajudam a compreender isso: altar sem toalhas, imagens encobertas, sem flores, sem castiçais.

“Pensar e meditar na paixão de Cristo é caminho excelente e perfeito para chegar à união espiritual com Deus. Nesta santíssima escola aprende se a verdadeira sabedoria; aí a aprenderam todos os santos. Quando a cruz do nosso amável Jesus tiver lançado raízes profundas no vosso coração, então cantareis: ‘Padecer e não morrer’, ou: ‘Padecer ou morrer’, ou melhor: ‘Nem padecer nem morrer, mas somente entregar me totalmente à vontade de Deus’.” (São Paulo da Cruz)

Ressuscitar: proclamar a vitória da vida

O Sábado Santo reveste-se de um duplo sentido no itinerário litúrgico do Tríduo Pascal. É o dia que a Igreja fica parada junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua paixão e morte, abstendo-se de celebrar o sacrifício da Missa. É um dia alitúrgico, reunindo-se a comunidade somente para a celebração da Liturgia das Horas. O Senhor Jesus que se entregou até a morte na Ceia de modo ritual e entregou-se na cruz de modo histórico-existencial, agora encontra-se na morte, “desceu à mansão dos mortos”, assim como professamos aos domingos no Credo.

“Este é o ponto mais baixo do Tríduo! O Sábado Santo, também chamado de Grande Sábado, é dia de profundo silêncio. O Senhor Jesus desceu ao mais baixo, à região dos sem-vida, dos sem-Deus, da humanidade na sua última miséria: Jesus experimentou realmente o derrota terrível da morte, morte ligada ao pecado – Ele, que não tem pecado – morte como distanciamento do Deus da Vida.” (Dom Henrique Soares)

Eis que ao cair da tarde, a Igreja irrompe o seu silêncio para proclamar a ressurreição. É a Noite Santa em honra do Senhor. Cristo Crucificado-Ressuscitado é “a páscoa da nossa salvação.” (São Justino) É a celebração emblemática da fé da Igreja representada nos dois testamentos. A vigília Pascal, caracterizada por Santo Agostinho como “a mãe de todas as santas vigílias”, é uma memória escatológica. Ou seja, prepara-nos para aquilo que teremos no céu, para as coisas últimas.  É expressão da nossa esperança e causa da nossa alegria.

Conforme o livro do Êxodo 12,42 esta é “a noite de vigília em honra do Senhor”, na qual os fieis estão com as velas acesas nas mãos, vigilantes, aguardando o seu retorno. À luz da Páscoa de Cristo, a Igreja militante aguarda a sua páscoa. Páscoa é passagem para as coisas que não passam, para as delícias eternas.

Pela ressurreição de Cristo o universo é recriado, dando nova dignidade ao gênero humano, a reconciliação plena e total do Criador e da criatura. “A vigília tem a seguinte estrutura: depois do lucernário e da proclamação da Páscoa (primeira parte: liturgia do Fogo), a santa Igreja contempla as maravilhas que Deus operou em favor do seu povo desde o início (segunda parte: liturgia da Palavra), até ao momento em que, com os seus membros regenerados pelo Batismo (terceira parte: liturgia Batismal), é convidada à mesa, preparada pelo Senhor para o seu povo, memorial da sua morte e ressurreição, à espera da sua nova vinda (quarta parte: liturgia Eucarística).” (PS 81)


 Marcus Tullius

Membro da Comissão Arquidiocesana de Liturgia